Cowboys do Asfalto

Garagem

"Cowboys" na revista quatro rodas (ediçao 25 - dez.2008)

Birocando na Caixinha Preta

Não entendeu nada? Leia a reportagem a seguir e conheça um pouco sobre o meio de comunicação mais utilizado pelos profissionais na estrada.

"Mandando um reco-reco nas costelas aos que estão em grega por todo este verde-amarelo e que o PX-maior sempre se faça presente no QTH de basquete". Não entendeu nada? Aí vai a tradução: "Mandando um abraço aos caminhoneiros que estão viajando pelo Brasil e que Deus sempre se faça presente na boléia". Em plena era da informática e do wireless, o rádio PX -- um serviço de radiocomunicação que permite a conversa entre pessoas que utilizam transreceptores na faixa de radiofreqüência em torno dos 27 MHz -- continua sendo o meio mais prático e útil para quem trabalha "no tapete preto", ou seja, na estrada. A propósito, se você também não entendeu o título desta reportagem, ele quer dizer simplesmente: "Falando no radiotransmissor".

Laptops e celulares de última geração não são incomuns nas boléias do país afora. Tampouco rastreadores por satélite, que conectam o caminhão 24 horas por dia com sua base e com sistemas de segurança. Porém, o rádio PX, sistema relativamente barato e simples de operar funciona mesmo onde não há sinal de celular, Nextel ou internet. Por isso, mesmo o caminhoneiro mais equipado não dispensa um aparelho PX na boléia. Ele tem importância fundamental na comunicação entre os caminhoneiros, ajuda a evitar assaltos, além de servir como ferramenta para requisitar ajuda, em caso de quebras mecânicas e acidentes.

"Uma das maneiras de diminuir o que muitos chamam de solidão da estrada é o uso do rádio PX", afirma Emílio Dalçoquio, dono da transportadora Dalçoquio nascido em um 30 de junho -- Dia do Caminhoneiro -- e que tem muito orgulho dessa profissão. Mas ele esclarece o que pensa sobre essa tal de solidão: "Há muitas pessoas que estão todos os dias em casa e mesmo assim são solitárias. Para muitos caminhoneiros, estar longe da estrada é que provoca solidão, diz Dalçoquio. "Veja o exemplo de um marinheiro. Onde ele é mais feliz, no mar ou em terra? E olha que no mar tem muito menos que na terra, não é mesmo?”“, Filosofa.

Para Dalçoquio, o caminhoneiro moderno difere muito da imagem popularizada pela mídia de um sujeito solitário e "bronco", avesso à tecnologia. Para ele, os caminhoneiros de hoje, principalmente os mais jovens, apreciam e utilizam as mais recentes tecnologias de comunicação, até mesmo como maneira de estar sempre bem informado e poder tomar as melhores decisões na estrada, tornando as viagens mais eficientes e cortando custos.

Cowboys do Asfalto. Apaixonados por filmes de faroeste e tudo que for relacionado a caminhões, Dalçoquio é também o criador dos Cowboys do Asfalto, um amplo clube de apoio ao caminhoneiro que ele define como "o que é o estilo Harley-Davidson para motos, só que para caminhões e picapes". Os Cowboys do Asfalto têm também uma divisão especial, os Cowboys do Asfalto no PX, uma ação social que coloca "de volta na boléia" caminhoneiros que sofreram acidentes que os incapacitou de seguir a profissão.

Quem ajuda a coordenar esse projeto é Airton de Lima, atualmente agenciador de cargas da Dalçoquio. Lima é motorista desde 1977, mas em 2001 sobreviveu a um acidente grave entre duas carretas, no qual o motorista do outro veículo morreu. Ele sofreu diversas fraturas expostas nesse acidente e passou dois anos em cadeira de rodas. Dalçoquio o chamou para participar de um projeto em que motoristas que sofreram acidentes continuam tendo papel ativo e se comunicando com os colegas que estão na estrada por meio do rádio PX.

"Assim a gente pode continuar convivendo no meio da motoristada", diz Lima. Em uma base de rádio PX instalada em um posto de serviços para caminhoneiros na cidade catarinense de Itajaí, ele conversa com os amigos na estrada para divulgar os benefícios e promoções que os motoristas têm ao parar nesse posto, inclusive bater papo com os companheiros, divulgar quando tem festa ou encontro dos caminhoneiros no local, além de dar apoio aos colegas. Lima faz essa atividade no PX desde 2002 - há cinco meses o aparelho quebrou e ele teve de suspender essa atividade, mas pretende retomar a comunicação em breve. "A importância do rádio PX na nossa profissão é nos comunicarmos quando há um acidente na estrada ou qualquer situação adversa, como gado na pista. Outra coisa importante é que divulgamos até campanhas de saúde, como as para alertar sobre doenças como a AIDS".

O caminhoneiro Leodor Dieter Mohr concorda que o PX ainda é um sistema bastante prático, principalmente para facilitar a comunicação entre os colegas. Na profissão há apenas dois anos, Mohr trabalhou antes por 15 anos como motorista particular. "Era bom ser motorista particular, mas como caminhoneiro, viajo para mais lugares sempre estou em locais diferentes, conheço novas pessoas. O rádio PX serve para combater a solidão, conversar com um e com outro. Já consegui evitar acidentes porque fui avisado, em uma estrada com muitas curvas, que havia um acidente logo à frente", afirma. Casado e pai de uma filha, Mohr diz, em seu caso, que a comunicação com a família é por telefone mesmo. Para conseguir falar em casa, via rádio, seria preciso a estrutura de antenas e o aparelho, o que nem sempre é fácil de obter.

Segundo Emílio Dalçoquio, na estrada há basicamente dois tipos de operadores de radioamador: aqueles que, sendo caminhoneiro ou não, usa o rádio para trocar idéias com outras pessoas ou grupos que estejam naquele momento em determinado canal: e o radioamador que pertence a um grupo. Esses últimos são aqueles que têm um grupo de amigos, que estabelecem um certo canal do rádio para trocar idéias. Esses grupos podem ter até 80 pessoas (com rádio de base fixa ou móvel) e geralmente têm nomes pintados na lataria dos próprios caminhões. "É uma maneira de o caminhoneiro dizer aos marginais que, com o rádio, ele nunca está sozinho, que está ligado a um grupo", diz Dalçoquio.

O presidente do Sindicato dos Caminhoneiros de São Paulo (Sindicam - SP), Norival de Almeida Silva, confirma que a principal forma de comunicação entre os caminhoneiros continua sendo o rádio PX. "Mas o celular pode ser também prático quando os motoristas viajam em comboio e em regiões com boa cobertura desse serviço", afirma Silva. Ele concorda com Dalçoquio também quanto à tendência de "modernizar" do próprio caminhoneiro e relata que a nova geração não dispensa o laptop. Porém, para ele, o PX ainda tem um elemento de rapidez na comunicação em situações que evidenciam uma das características que ele considera mais marcantes nessa categoria profissional: a solidariedade.

Um miniglossário

As gírias dos motoristas no radiotransmissor

  • Barracão de zinco: caminhão baú
  • Bigode a bigode: falar pessoalmente com outro caminhoneiro
  • Botina preta: polícia rodoviária
  • Botina branca: médico
  • Cristal: esposa
  • Dois metros horizontais: dormir
  • Mala de navio: contêiner
  • Pára-raios: sogra
  • Vitamina de minhoca: barro, lama

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